Comrades Marathon 2014

Ultra Maratona em África do Sul – Muito mais que uma corrida…

Uma medalha, dois litros de soro e uma manta térmica…

É justo começar esta cronica com as expectativas que tinha para a prova – Comrades Marathon. Durante os últimos 2 meses em angola a qualidade dos treinos não foi a melhor, mas sabia que tinha feito kms suficientes para terminar a prova com algum sofrimento. Esperava cãibras e dores musculares por volta dos kms 70-80 mas com tempo suficiente para andar e correr devagar e assim terminar bem. Nada me preparou para o que ia acontecer.

Este prova realmente começou no Sábado anterior, sabendo que no domingo tinha que me preparar cedo vi que com o stress a ansiedade da prova era difícil descansar essa noite. 
Assim sábado de manha fui- me registar e ver a exposição, almoço perto do mar seguido de passeio de autocarro pela cidade para não me cansar muito. Final da tarde dormir um bocado, jantar por volta das 19, e depois hotel para ver televisão até á hora prevista.

Eram 1.30 quando me comecei a preparar, e depois do pequeno almoço sai do hotel eram 2.30 e caminhei 3 kms até á zona de partida do autocarro, por isso fiz mais de 90 kms nesse dia 🙂 Estava frio, levei uma camisola e uma manta que pedi no avião.
O autocarro partiu sem problemas e chegamos perto das 4 horas a Pietermaritzburg. Ainda estava tudo deserto, tomei um café dado pela organização e sentei-me numa porta de uma igreja perto da minha gate de partida a ver o ambiente com o cobertor por cima, estava bastante frio.

Cerca das 5 horas ainda noite cerrada, foi pela ultima vez a casa de banho e encaminhei-me para a minha gate. começaram a juntar os participantes, com música para animar a malta, era tempo de acordar o corpo e começar a falar com os participantes. Os dorsais da comrades tem o teu nome, número de vezes que fizeste a corrida, várias cores dependendo se fores internacional, ou se fizeste mais de 10 vezes ou se já fizeste a subida, etc. assim torna a comunicação mais fácil. Falei com pessoas com mais de 20 corridas já feitas, o máximo que vi foi 47 vezes !!!

Cerca de 10 min do inicio começou o hino da África do Sul, claro de arrepiar o momento, foi para isto que treinei vários meses e fiz tantos sacrifícios, ia ser um dia longo mas eu estava preparado. Foi ao som de “charions of fire” e com um canhão que se deu a partida para a prova. Demorei cerca de 5 minutos a cruzar a meta e aquelas 18 mil pessoas estavam com a adrenalina no máximo, lembro-me de começar a correr a 5.30 pois não podia ir mais devagar, todos iam assim e não conseguia abrandar.

A corrida ia compacta, na primeira subida tentei manter o ritmo e correr, mas mais de metade das pessoas já começavam a andar e era difícil desviar-me. Na segunda subida desisti e fiz como a maioria das pessoas, andar nas subidas. Estava ainda frio e passado o km 10 ainda não tinha tirado a camisola.
, foi só cerca do km 17 que começou a surgir o sol e tive coragem para largar a camisola num abastecimento. Era incrível o número de pessoas aquela hora na estrada a apoiar os atletas.

A prova estava a correr bem, as pernas iam soltas, mantinha o ritmo planeado de 6.30 o km e a temperatura estava agradável.

Foi após o km 22, lembro-me de dizer que meia maratona já estav feita, que comecei a sentir uma dor forte no baixo abdômen nos dois lados. Primeiro pensamento foi são os rins, alguma coisa não está bem. Tentei urinar mas não saiu quase nada e já tinha cerca de 8 paragens para beber, pois embora sem calor, tenho o hábito de beber sempre.

Continuei a corrida e tentei abstrair-me da dor que justifiquei como dor muscular, talvez eu não tivesse feito abdominais suficientes e a dor durante a prova ia de certeza passar, não tive tantos meses a treinar para desistir tão cedo. Deixa ver como corre.

Era incrível o ambiente da prova, nunca ia sozinho, eram pessoas mascaradas, eram velhotes com mais de 70 anos a tentar correr, imensos personagens distintos que tentavam de alguma forma deixar a sua marca na prova. Imensas pessoas falavam comigo por eu ser de Portugal, Ronaldo, fado, comida, etc, era impossível sentir-se sozinho nesta prova.

Os abastecimentos eram incríveis, a cada 3 kms existiam uma estrutura montada por uma instituição de solidariedade ou pelos patrocinadores sempre com esta sequência: agua sempre fresca, banana e laranja, coca cola e sumos, bolachas e barras energéticas e no fim outra vez agua. Nunca nos preocupávamos porque sabíamos que tínhamos sempre mais á frente o que queríamos.
Além disso existiam milhares de pessoas no caminho a oferecer agua e comida portanto era impossível existir mais apoio na prova.

Finalmente cheguei a meio da prova, uma maratona já estava feita, a dor persistia e não havia meio de desaparecer. Aqui começaram as maiores subidas e fui completamente abaixo anímicamente. Nunca parei e foi então que conheci o Norman, um Sr. de 64 anos que estava a fazer a sua 7 corrida e que numa subida puxou por mim e disse ” anda Paulo, vamos devagar, o segredo é correr devagar e andar, vamos até aquela árvore e depois paramos”. E foi assim que consegui reanimar e voltar á prova. Claro que eu nunca ia desistir, mas ver aquela homem a sacrificar-se e a puxar por mim deu aquela motivação extra e comecei a tentar correr nas subidas devagar. Sabia que se andasse em todas as subidas não conseguia terminar a prova a tempo, tinha que correr um bocadinho.

Entre correr nas descidas e andar nas subidas ou correr devagar, chegamos ao km 70. Aqui comecei a sentir-me melhor, a dor no abdômen desapareceu, e o Norman estava bastante cansado e quando começamos a descer eu mantive um ritmo melhor e comecei a acelerar um bocadinho, estava bem, não ia acabar antes das 10 horas mas perto disso. Mas sempre a correr nas descidas e a andar nas subidas.

Ao km 75 comecei a sentir a famosa dor de burro, senti que tinha que abrandar um bocado para conseguir correr, mas não podia abrandar muito pois começavam a aparecer as minhas amigas cãibras. Ou seja era um ritmo muito delicado, entre dor de burro e cãibras nos gêmeos. Foi assim até ao km 86 entre algumas subidas e muitas descidas.

Aqui já sabia que ia terminar a prova, tinha 1h30 minutos para fazer 4 kms. Foi então que conheci um sul africano Ian, íamos a andar e foi então que me disse ” Paulo parabéns vais terminar, só precisa de andar até á meta, para o ano tens que vir fazer a subida”. Eu disse que ele estava louco que talvez daqui a muitos anos quando esta recordação estivesse longe. Mas depois pensei comigo, tu não vieste aqui aqui para acabar a prova, tu vieste aqui para fazer o teu melhor, olha toca a correr a ver se acabamos antes das 11 horas.
E foi então que cheio de motivação comecei a correr devagar, o que durou 1 km pois o meu corpo já não aguentava mais.

Foi aqui que comecei a sentirem tonto e enjoado, estava de tal forma cansado que andei de olhos fechados para ver se descansava alguma coisa, o corpo estava fazer Shutdown.

Os últimos 2 kms foram um suplício, uma recta enorme na cidade com milhares de pessoas a gritar o teu nome e tu sem força para sequer acenar. Agora percebia a estatística que dizia que a maior parte das desistências são nos últimos 3 kms.

Pé á frente dizia eu, outro pé, agora outro, era assim que me motivava para ir até ao fim. 

Foi com muita tristeza que entrei no estádio para os últimos 400 metros, o estádio estava cheio, milhares de pessoas a gritarem o teu nome e tu sem conseguir correr. Tentei, juro fui buscar forças não sei onde e comecei a correr…10 metros e parei, se queria cruzar a meta tinha que parar.

Como o meu amigo Nuno Caetano me disse “mesmo que estejas todo lixado, na meta levanta bem a cabeça e os braços, és um campeão” e foi assim que terminei a comrades…

Recebi a medalha e pedi logo auxílio medico. Levaram-me para a tenda médica onde foi muito bem tratado e tive a minha recompensa por 11h14 minutos de luta interior, dois litros de soro e uma manta térmica por causa da hipodérmica. Diagnóstico: desidratação e falta de juízo.

Ao meu lado estava um atleta que falhou a meta por 100 metros, outro que conseguiu por 2 minutos…

Comrades Marathon


A Comrades não é uma corrida, é uma experiência de vida.